As gordas, as magras e as assim-assim

Do muito do que já se disse e desdisse sobre as não-gordurinhas da Jéssica, confesso não vir acrescentar nada ao debate.

Mas confesso também que é um tema especialmente querido para mim: não o diz-que-diz, não o meter-na-vida-dos-outros, não todo o mediatismo de algumas questões, ansioso por vender e incapaz de formar; mas sim a “ditadura da imagem feminina”.

Vinda do meio da publicidade, tenho uma vaga ideia do bom aspecto das meninas dos anúncios, independentemente de serem de lingerie ou de detergentes (com honrosas excepções).

O problema é esse bom ali ao lado do aspecto. Porque é que é bom? Porque é que ser assim é bom? Porque é que ser bonita para os outros é ser assim: muito magra, sem rugas, sem cabelos brancos, sem celulite, com mamas e rabo grandes (ui, disse palavras feias!), com olhos e lábios grandes.

Mas o pior é sabermos que mesmo sem um porquê, ser assim é o que define ser bonita para nós, mulheres, meninas, gajas, miúdas, moças. Quando ninguém é assim. Ninguém é assim tão perfeito. E se for, é uma excepção. E as excepções não são a regra (bravo, uma novidade!). Mais, agora enquanto escrevo isto penso: perfeito? Quem é que teve a prepotência de definir essa perfeição?

Nós. Nós Humanos. Nós Mulheres e Homens. Nós que vamos vendo, aplaudindo e deixando que tudo isto entre pelos olhos das crianças. As crianças que seremos Nós.

E podem estar para aí a pensar que eu não tenho cá moral para falar disto e que devo ser muita gorda e cheia de rugas. O problema está em eu querer justificar-me. Em eu sentir que só vão levar a sério quem for mais assim ou menos assado.

Mas não, o problema é (avaliando se as meninas são mais assim ou menos assado) pensar-se se têm razão ou se estão apenas ressabiadas, em vez de tentar mudar-se a definição de perfeição de cada um.

PS: eu sei que aquela parte das mamas e do rabo grandes não se aplicam a todos os “ideais” (palavra mas descontextualizada) de beleza, mas dá para entender.

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O Verão é levado da breca

Então estamos a entrar no Outono.

O Verão passou, rápido, como sempre. Levou com ele as tardes longas, as esplanadas, as praias, grande parte dos camons, as pessoas nas aldeias, as avenidas sem trânsito…

O Verão é um puto lixado, leva com ele muitas das coisas boas da vida, mas não faz mal: no Natal também não está cá para receber presentes!

Podia vir aqui lamentar-me e mostrar como estou triste por voltar a partilhar o metro com muita gente, mas não, venho cá dizer que daqui a nove meses vou poder novamente sair de casa sem secar o cabelo, andar na rua sem me acharem albina e comer sandes de presunto na praia . Isso anima-me.

Bunny Jay

As fotos das comidas que andam na gandaia

Já pensaram no quão gourmet um courato pareceria se o fotografasse e publicasse a foto no Facebook?

As comidas estão numa onda de sorte. Qualquer uma, desde lasanha de espinafres com beterraba a sardinha assada com pão (a última a chegar a um feed perto de si) pode ser alvo de uma produção magnífica e ainda se habilita a ganhar um book gratuito, com uns filtros mesmo janotas que as fazem parecer ainda mais chiques.

Também gostava de ser um prato cheio (ou só com um niquinho, que é mais comum) de alimentos cozinhados (ou não), para poder ser objecto de atenção e, mais do que isso, entrar para o estrelato da moda, o pódio dos manequins fotográficos…

São quase tão frequentes no Facebook como aquelas que as meninas tiram em frente ao espelho antes de sairem na sexta à noite, ou no sábado ou em todos os outros dias em que as pessoas mesmo que não saiam de casa decidem colocar fotos do seu look na rede supracitada, i’m pretty sure.

E agora uma pergunta séria: alguém sabe se há concursos de beleza de comidas? Queria inscrever o meu ovo mexido num prato preto, só porque fica bem com a sua tez.

Bunny Jay

Morrer na praia

Ontem lembrei-me das pessoas que morreram antes do 25 de Abril, aquelas que entraram no regime e não saíram dele. Debrucei o meu pensamento mais até naquelas que morreram em Janeiro, Fevereiro, Março ou até ao dia 24 de Abril de 1974. Literalmente morreram e, metaforicamente, fizeram-no na praia. Se bem que a morte não se faz, acontece, e no seu caso, aconteceu-lhes cruelmente.

Quem nasce no regime e morre fora dele acredita, em última instância, na esperança. Quem nasce fora e morre dentro, apenas acredita que está preso num cubo, dentro daquilo que lhe tira a liberdade, asfixiado pelo poder de alguém ou alguma entidade que se diz senhor dos outros.

Quem morreu antes do 25 de Abril não chegou a sair do país em que o fizeram entrar. Esteve em terra, foi puxado pelo mar, deixou-se boiar (na maior parte das vezes) para que as mossas das tempestades fossem menores, mas morreu na praia. Com a terra segura tão perto.

Johans

Surpresa!

Ao contrário do que normalmente publico aqui, isto vai roçar o pessoal. Têm toda a liberdade de o passar à frente se o desejarem, mas como sei que quase toda a gente gosta de meter o bedelho na vida dos outros, acho que já consegui prender a vossa atenção, logo, vocês vão lê-lo à mesma.

Este texto é uma prenda (e não um presente, apenas porque gosto mais de assim o dizer). É-o porque o seu destinatário é alguém que me pede sorrateiramente para escrever à luz de alguma coisa em si que me inspire. A bem dizer é um bocado difícil conseguir controlar a fonte da nossa inspiração para um objectivo específico. Ou seja, ele pode ser uma inspiração para mim em alguns momentos ou para algumas actividades, mas não estimular a escrita que por aqui vou fazendo, por ter um registo que só eu cá sei, e é às vezes.

Por isso, este texto será exclusivamente (ou quase, para ele ficar feliz) inspirado em tal. Porque é uma surpresa. E, por isso, se por acaso vos apetecer muito falar dele ou divulgá-lo, peço-vos encarecidamente que não o façam até dia 13 de Abril. Vou tentar fazer-lhe a vontade, porque é alguém de quem cuido.

É um ele, é um ti. É uma vontade de ti.

E podia acabar assim. Simples, conciso. É o essencial. Mas vou dizer mais. Vou dizer que tens coisas que às vezes odeio. Vou dizer que em alguns dias me apetece bater-te. Vou dizer que conheço um lado teu de que gosto bastante. Vou dizer que seres trapalhão te dá alguma graça. Vou dizer que o tempo em que estou contigo é caloroso, aventureiro, preguiçoso, implicativo, carinhoso, emotivo, tranquilo e pateta. E se pudesse, era mais. Era um tempo maior.

Dá para ver que  isto dos textos bonitos sobre ti não é para mim. Ou não estou inspirada. Ou não há assim tanto para dizer. Ou dizer que tenho vontade de ti basta.

Vontade de ti, do teu abraço, do teu tempo, das tuas histórias (aquelas que ainda não ouvi), dos teus problemas, do teu sorriso (coisa mais bimba),  do teu perfume, da tua mão, das tuas soluções, das tuas surpresas, do teu mundo. De muitas coisas tuas aleatórias e de ti, uma outra vez.

Ju

Posted in Ju

O super-poder da embraiagem

Queria escrever mais algum post aqui, só naquela de parecer que sou uma pessoa dedicada e porque temos a mania de que mais é sempre melhor. Então, porque não mais um conjunto de frases, precedido de um título e com a dica “Deixe um comentário”, no fim?

O problema é que isto não é como a gelatina, em que se mistura um pó colorido com água (esta descrição também serve para aquela mezinha que a minha mãe fazia para tingir as calças que ficavam com salpicos de lixívia, lembrei-me). Eu preciso de, num momento qualquer de alienação, divagação ou estupidez, lembrar-me de algum tema sobre o qual gostaria de apresentar a minha perspectiva. Não que seja normalmente muito interessante, mas eu acredito que alguém a quererá ler, ainda que coagido.

E o único pensamento que tenho tido nos último dias é: a embraiagem deve ter um super-poder. Eu não sei o que faz ela, que processos desencadeia, se se estraga ou não. Sei que cada vez que não sei o que fazer, se pisar a embraiagem, o problema termina. Acho que isto só pode ser um dom; o dom de me safar sempre que a aula de condução está prestes a transformar-se num cenário bélico, tal o desespero dos passageiros.

E normalmente não saber como algo funciona é uma coisa que me chateia. É uma coisa que mói, que fica aqui a remoer nos neurónios e a saltitar de um lado para o outro das orelhas até existir alguma conclusão. Portanto também já tenho uma conclusão sobre a embraiagem. Mentira! Nem sequer pensei ainda muito nisso, que os meus conhecimentos de mecânica são tão bons quanto o que acho que são os conhecimentos de nutrição do Fernando Mendes (estive quase para inserir aqui uma piada política, mas tive medo de ser presa).

E assim se arranja um tópico vindo-se sabe-se lá bem de onde para produzir um conjunto de frases, precedido de um título e com a dica “Deixe um comentário” no fim.

Bunny Jay

Uma aplicação para a mesa do canto, por favor!

Para quem tem um smartphone, todo um novo mundo se apresenta. As aplicações crescem como cogumelos (e não são mágicos, embora possa parecer pelo que vou dizer na frase a seguir). As aplicações são as novas fadas-madrinhas.

Há aplicações para tudo, desde agendas até cronómetros de arrotos. Ou talvez não, mas não deve demorar. Na verdade ainda não tenho um telemóvel mágico, mas vou fazendo uns biscates com os alheios.

As aplicações (tenho de repetir o nome porque não sei que substituto hei de arranjar) facilitam a vida das pessoas. Como poderia alguém viver sem um programa que converte litros em centilitros?

São fadas-madrinhas que concedem todos os desejos que alguém pode ter. E quando não têm como o fazer, fazem outras nascer. É a multiplicação das fadas, por meio de pós mágicos. Mas tudo isto por via digital e sem término à meia-noite.

É um mundo fantástico onde quando se pensa que alguma coisa dava mesmo jeito, essa passa a existir dias depois com o prefixo App. Lixado é quando a bateria do menino acaba e os nossos amigos não têm net gratuita para acederem ao Instagram e reportarem a situação.

Bunny Jay

Da moral e dos bons-costumes

Acho que quem normalmente usa o argumento “porque eu sou a favor da moral e dos bons costumes” não sabe o que é a moral nem o que são os bons costumes.

Nem eu própria sei muito bem, tão pouco me apetece ir pesquisar sobre isso (admito, fui pesquisar um bocadinho, mas quase só encontrei respostas a perguntas no Yahoo – ou na Yahoo? – , que têm o mesmo suporte científico da Wikipedia).

Então, este devaneio serve apenas para dizer que o argumento não é válido porque quem o usa não sabe o que está a dizer e porque nem sequer é um argumento.

A prova de que não sabem qual o conceito de “moral e bons costumes” é a resposta que dariam se lhes perguntássemos isso mesmo. Acho que diriam que a moral é aquilo que há muito tempo se vai dizendo que tem de se fazer, e que os bons costumes são aquilo que há muito tempo se faz. E não estou a dizer que a linha de pensamento ou os hábitos que se usam numa determinada discussão para justificar uma determinada posição são descabidos ou perversos (cada caso é um caso); estou só a dizer que quem faz uso “da moral e dos bons-costumes” nessa determinada situação, muitas vezes, nem pensou sobre o que é defendido por esses elementos (naquela esfera subjectiva e conceptual em que se guardam na nossa mente e a que ninguém chega muito bem).

E porquê que este argumento é, então, um não-argumento? Porque usá-lo numa discussão é o mesmo que não andar de carro para poupar papel. Todos sabem que se deve fazer, que desperdiçar papel acelera o aquecimento global e que andar de carro também. Mas uma coisa não justifica a outra, principalmente porque quem usaria o argumento do papel não teria gasto 2 minutos da sua vida a pensar nas verdadeiras razões que o levariam a não andar de carro.

Proponho então que cada vez que ouçamos “moral e bons costumes” digamos bingo, e assim as pessoas têm de ficar caladas até dizermos o nome delas. Nesses minutos podem reflectir sobre o que pensam e sobre as barbaridades que dizem.

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Ode aos Estágios Não-Remunerados

Obrigada.

Obrigada, estágios não-remunerados (com tracinho) pela vossa existência.

Obrigada por serdes tão bondosos para com as entidades empregadoras, por fazerdes com que a população a trabalhar cresça apesar de não aumentar a população activa; obrigada por nos fazerdes continuar a saborear a vida no lar dos nossos pais e por proporcionardes aos jovens uma aventura no mundo sem gastos, uma vez que não têm como os cobrir.

Obrigada a vós, por nos fazerdes ganhar experiência vários meses seguidos sem que a possamos utilizar posteriormente, visto que ninguém nos emprega realmente; obrigada por nos ensinardes à partida que três meses depois de vos aceitarmos estaremos na mesma situação tributária e que por vontade dos patrões continuaremos mais uns mesinhos a trabalhar para aquecer, porque fomos estagiários exemplares.

Obrigada por nos fazerdes crer, a partir do momento em que iniciamos a procura de emprego, que tudo isto é normal. Que é normal estagiarmos num local e que, se este mesmo local for amigo da lei, três meses depois estamos de novo à procura. Que é normal não aplicarmos nada do que aprendemos no estágio na própria empresa que nos deu alguns conhecimentos e ferramentas. Que é normal depois de nós virem outros na nossa situação.

Mas o normal, ó estágios não-remunerados, não é isso. O normal é entrarmos numa empresa ou wtv e aprendermos lá. O normal é estarmos algum tempo em formação, que podem, no máximo, e se a entidade patronal desconfiar muito das nossas capacidades, ser 3 meses, passarmos para funções de maior responsabilidade e sermos pagos por isso e nos anos seguintes a mesma progressão. Isso é normal.

O que não é normal é trabalhar sem receber. Isso antigamente chamava-se escravatura.

Aprendam, senhores estágios não-remunerados. O normal não é trabalhar 8 horas por dia, com despesas de deslocação e alimentação, sem receber um tostão e com doze anos de estudos e três anos de licenciatura nas mangas.

Obrigada, estágios não-remunerados, por nos fazerdes mais pobres do que os nossos pais quando vieram para a cidade com a instrução primária, embora com muita vontade de trabalhar. E obrigada por fazerdes com que essa vontade de trabalhar e o sacrifício feito para nos dar um futuro melhor não passe disso: vontade e sacrifício.

Bunny Jay

É Amanhã

Lembras-te de te deitares dentro dos lençóis quentinhos com vontade de que o amanhã chegasse muito tarde porque seria dia de teste de matemática? Lembras-te de dizeres silenciosamente que ainda faltava muito para o amanhã só para dormir ser mais fácil?

Lembras-te de te deitares nos lençóis fresquinhos sem vontade alguma porque amanhã já estarias na terra? Quem é que conseguia dormir quando o amanhã parecia tão mais interessante…

Lembras-te de te deitares nos lençóis sabendo que amanhã estarias noutro lugar, estarias com outras pessoas, estarias fora daquela cama. Partirias à aventura e aproveitarias aquilo que desejavas e que planearas há muito tempo. Seria de manhã, seria dia e a noite chegaria tarde.

É amanhã! É sempre amanhã que as coisas acontecem: que descemos com as malas já feitas, que vestimos o traje uma outra vez, rezando para que as meias não se rasguem logo, que vemos alguém que não vemos há muito tempo, que vestimos o bikini, que calçamos os saltos altos, que entramos num carro com muita gente e aos berros, que conhecemos pessoas novas, que vamos a sítios antigos.

Lembras-te de te deitares na cama e pensares: é já amanhã?

Johans